Empresas de diferentes portes no Brasil vêm mudando a forma como enxergam a segurança institucional.
O que antes se resumia a portaria e vigilância terceirizada passou a ocupar cadeira nas discussões estratégicas, ao lado de compliance e gestão de riscos. Esse movimento não surgiu do nada: fraudes internas, invasões a instalações críticas, vazamento de dados e ataques direcionados a executivos deixaram claro que não ter uma estrutura formal de proteção saiu da conta de “economia” e entrou na conta de “risco”.
Por que o diagnóstico vem antes da contratação
O erro mais comum ao montar uma área de segurança é começar comprando equipamento e contratando gente antes de entender o problema. Segundo o especialista em segurança institucional Ernesto Kenji Igarashi, a estrutura precisa nascer do risco, não o contrário. Isso significa mapear o que a empresa realmente precisa proteger, quais ameaças fazem sentido para o seu setor e sua região, e qual nível de risco a liderança está disposta a aceitar.
Esse diagnóstico envolve levantar o histórico de incidentes, inventariar o que é crítico (pessoas, instalações, informação, reputação) e avaliar vulnerabilidades físicas e tecnológicas. Departamentos montados sem esse passo tendem a gastar demais em soluções visíveis, como câmeras e catracas, e deixar de lado riscos mais silenciosos, como o acesso indevido de ex-funcionários a sistemas internos.
Como o organograma muda conforme a empresa cresce
Não existe um modelo único de estrutura de segurança, mas existe uma lógica de evolução. Em empresas de médio porte, costuma começar com um gestor reportando a uma diretoria de operações, riscos ou compliance, com equipes enxutas cuidando de segurança física, prevenção de perdas e gestão de crises. Conforme a empresa cresce, entram funções de inteligência, proteção executiva e interface com a área de segurança da informação.
Igarashi chama atenção para um ponto que costuma passar despercebido: o posicionamento hierárquico da área importa tanto quanto sua composição interna. Uma equipe de segurança subordinada a uma gerência administrativa de baixo escalão dificilmente consegue influenciar decisões que criam ou reduzem riscos. Quanto mais crítico o ambiente de ameaças de um negócio, mais perto do C-level essa função deveria estar.
A ordem certa: pessoas, depois processo, só então tecnologia
Existe uma tentação de tratar a implantação de segurança como um projeto de compras. Só que tecnologia sem processo é apenas custo, e processo sem gente preparada é papel guardado em gaveta. A sequência que funciona começa pela seleção de profissionais com formação técnica e experiência real, passa pela construção de protocolos testados e auditáveis, e só depois chega à tecnologia, que deve potencializar o que já funciona, não substituir o que falta.
A integração com outras áreas também pesa nesse resultado. Uma equipe de segurança que trabalha isolada de RH, jurídico, TI e comunicação costuma descobrir os problemas tarde demais. Comitês periódicos de risco e canais de reporte acessíveis a todos os colaboradores ajudam o departamento a funcionar como um sistema de alerta precoce, capaz de captar sinais fracos antes que virem crise.
Como provar valor em uma área que não gera receita direta
Um motivo recorrente para departamentos de segurança perderem orçamento em momentos de corte é a dificuldade de mostrar resultado. Diferente de vendas ou produção, segurança entrega ausência de eventos, o que exige indicadores bem desenhados: redução de perdas, tempo de resposta a incidentes, cobertura de treinamentos e evolução da maturidade em frameworks como a ISO 31000 ajudam a traduzir prevenção em linguagem que a diretoria entende.
Igarashi observa que a credibilidade de uma área recém-criada se constrói nos primeiros doze meses. Pequenas vitórias mensuráveis, como queda em ocorrências patrimoniais ou uma resposta bem-sucedida a um incidente real, pesam mais do que qualquer apresentação conceitual. Documentar, medir e comunicar é o que garante orçamento no longo prazo.
Estruturar uma área de segurança em 2026 já significa nascer preparado para um cenário em que inteligência artificial e monitoramento preditivo deixaram de ser tendência para virar exigência. Empresas que ainda tratam segurança como despesa acessória tendem a descobrir, do jeito mais caro possível, que o custo de um departamento bem montado é sempre menor do que o custo de uma crise mal administrada. E essa é uma capacidade que se constrói de forma contínua, revisando protocolos a cada novo ciclo de ameaças.
Fonte: Proteção pessoal em alta: por que o Brasil busca profissionais qualificados? (Tribuna de São Paulo)
