Livro de memórias: O que a escrita guarda que a fala perde?

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Alfredo Moreira Filho

Na visão de Alfredo Moreira Filho, empresário que reuniu lembranças de mais de sete décadas no livro “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, quem chega a essa idade carrega histórias, conhecimentos e percepções que justificam um registro. A observação ajuda a entender o que é, afinal, um livro de memórias. Trata-se de um relato de fatos vividos ou presenciados pelo próprio autor, escrito sem a obrigação de cobrir uma vida inteira nem de comprovar cada detalhe com documentos.

O gênero não pertence apenas a políticos, artistas e grandes nomes da história. Qualquer pessoa com uma trajetória para contar pode recorrer a ele, e muitas famílias só conhecem a própria origem porque alguém decidiu escrevê-la. Se na sua casa há alguém cujas histórias só aparecem nas conversas de domingo, vale seguir a leitura para entender por que elas merecem sair da fala e ir para o papel.

Memória não é autobiografia

A confusão entre os dois gêneros é frequente, mas a diferença é prática. A autobiografia tenta organizar a vida em ordem cronológica, do nascimento ao presente, e por isso exige pesquisa, datas e certo compromisso com a completude. O livro de memórias, por sua vez, seleciona episódios. O critério de escolha é o significado que cada lembrança ganhou para quem a conta, e não a importância histórica do fato.

Essa liberdade aparece de forma explícita na obra. Alfredo Moreira declara, na introdução, que se valeu de memórias remanescentes, não fez pesquisas para sustentar os relatos e não pretendeu transformar o livro em autobiografia. As narrativas são independentes entre si, ligadas apenas pela linha do tempo. Na prática, isso permite ao leitor abrir o volume em qualquer capítulo sem perder o fio.

O que a oralidade não segura?

Histórias contadas em voz alta sobrevivem, em geral, por duas ou três gerações. Depois disso, os detalhes se perdem: o nome do vizinho, o preço de um produto, o jeito exato de executar uma tarefa que deixou de existir. O que resta é um resumo vago, repetido sem contexto. Com ele, o neto já não consegue imaginar como era a vida do avô.

A escrita fixa justamente esses detalhes, destaca Alfredo Moreira. Um exemplo está na descrição de uma farinhada numa fazenda do sul da Bahia: as raízes raspadas por várias mãos ao redor de um monte, o rodicho que ralava a mandioca, a prensa que separava o sumo venenoso, a conversa sobre assombrações que atravessava a madrugada. Registros assim valem como documento de um modo de vida rural que as gerações urbanas mal conhecem.

O narrador que fala de si como outro

Um recurso que merece atenção é o do personagem. Em vez de escrever “eu”, muitos autores preferem narrar a própria vida em terceira pessoa, criando uma figura que os representa. A distância ajuda a contar fracassos com humor e a admitir erros sem constrangimento. Episódios dolorosos, do mesmo modo, ganham mais serenidade quando vistos de fora.

No livro em questão, Alfredo Moreira Filho criou o personagem “Filho” para ocupar esse lugar. É por meio dele que o empresário relata a tentativa desastrada de dominar uma bezerra no curral, aos seis anos, e a lição que diz ter extraído do episódio: só vale enfrentar um desafio quando existe competência para superá-lo. O personagem permite que o adulto observe a criança sem precisar se defender dela.

Quando o livro devolve algo à origem

Livros de memórias escritos fora do circuito comercial têm, muitas vezes, finalidade afetiva ou comunitária. Alguns circulam só entre parentes; outros viram presente para amigos. Há ainda os que servem para arrecadar recursos para uma causa ligada à história narrada. Nesses casos, a publicação deixa de ser apenas um registro pessoal e passa a funcionar como vínculo com o lugar de onde o autor saiu.

Foi esse o caminho escolhido por Alfredo Moreira Filho, que custeou a obra com recursos próprios e pede aos leitores uma doação à Paróquia de Nossa Senhora das Dores, em Igrapiúna, na Bahia, sua terra natal. Ele também deixa o livro aberto a contribuições e correções para eventuais novas edições, o que reforça uma característica do gênero: a memória nunca se dá por encerrada. Percorrido esse caminho, nota-se que escrever memórias é menos um exercício de vaidade e mais uma forma de garantir que certas histórias continuem sendo contadas.

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